No fundo do baú #1

Bruno Oliveira

Fez recentemente 19 anos que a Microsoft apresentou oficialmente a sua primeira consola no mundo dos videojogos. Na Europa, a consola foi oficialmente lançada a 14 de março de 2002, quatro meses depois de ter sido lançada na América do Norte. Lembro-me perfeitamente do período que antecedeu o seu lançamento. O mercado dos videojogos tinha perdido um importante interveniente (que saudades Sega…) e a Sony Playstation 2 – PS2 (lançada a 24 de novembro de 2000) parecia cada vez mais dominante, principalmente após a morte da Sega Dreamcast e com a Nintendo Cube a mostrar-se pouco entusiasmante.

Estávamos na era do DVD e afinal de contas essa seria uma das razões pela qual a Sega não aguentou a “guerra” contra a Sony. A estratégia da Sony foi triunfante. Na época, toda a gente queria ter um leitor de DVD, que não era um equipamento nada barato. Nos primeiros tempos de lançamento a PS2 aumentou em bastante as vendas de DVD. A Sony apresentou um dos leitores de DVD mais baratos do mercado com o “bónus” de ser uma máquina de videojogos de nova geração retrocompatível com os jogos da geração passada: a Playstation. Olhando apenas para os argumentos direcionados exclusivamente para a componente de videojogos, a luta parecia bastante renhida e até pouco favorável para a Sony. A Sega Dreamcast já tinha sido lançada à uns meses (14 de outubro de 1999) e apresentava excelentes jogos de nova geração com uma forte componente online
(clicar nas imagens para um tamanho maior)

Em meados de 2001 era comum vermos anúncios (Figura 1, 2, 3, 4, 5 e 6) relacionados com os jogos online na Dreamcast, algo que para a PS2 (lançada alguns meses mais tarde) estava longe de representar uma principal aposta.

Figura 7 – Revista BGAMER de Fevereiro de 2001
Andei a pesquisar os meus arquivos e encontrei algumas revistas da época com informação muito interessante que retrata o sentimento que se vivia na época em relação ao mercado de videojogos. Na revista BGAMER de fevereiro de 2001 (Figura 7), na rubrica “Carta dos Leitores” (Figura 8 e Figura 9), um dos leitores questiona se valerá a pena dar 100 contos (cerca de 500 euros) por uma PS2 quando se podia gastar 30 contos (150 euros) por uma Dreamcast, quando eram duas consolas bastante similares. É curioso que o leitor refere a mais-valia do DVD por parte da PS2 e a ligação à internet/jogos online da Dreamcast como as características mais relevantes para a escolha entre as duas consolas. O próprio leitor questiona ainda se a PS2 terá um acesso à internet similar à Dreamcast. Como resposta ao referido leitor, a redação da revista brinca com a escolha do leitor em relação à PS2, enaltecendo a qualidade dos jogos da Dreamcast e a possibilidade de no final de 2001 a Sony avançar com serviço online similar. Ao reler este conteúdo, constato que a minha perspetiva não mudou muito nestes últimos 19 anos. A Dreamcast era realmente uma consola fantástica, inovadora, com jogos excelentes e um preço bastante competitivo.
BGAMER Fevereiro de 2001 - Editorial
Figura 10 – Revista BGAMER Fevereiro de 2001: Editorial

Nessa edição da BGAMER é ainda destacada a revelação da consola Xbox. No editorial (Figura 10), é realçado que alguns gamers acreditavam que a consola da Microsoft viria para revolucionar um mercado que padecia de alguma criatividade. Realço algo que me me fez sorrir ao ler o editorial, em que o autor refere: “Numa época em que a originalidade começa a escassear e as editoras preferem apostar na formula já testada, lançando sequelas atrás de sequelas sem grandes preocupações com a inovação”. Em 20 anos pouco parece ter mudado 🙂

É ainda em 2001 que começam a surgir as primeiras notícias nos principais órgãos de comunicação social portugueses, embora sem o destaque que por exemplo uma consola da Sony teria. A desconfiança era grande. A Microsoft era reconhecida por uma postura algo arrogante, gerando alguma incerteza entre consumidores que olharam para o anúncio da Xbox como uma consola disfarçada de PC. Não me lembro se este sentimento era generalizado mas lembro-me de na época ter essa perceção. 
Revista BGAMER Fevereiro 2001 - Artigo XBOX
Figura 13 – Revista BGAMER Fevereiro de 2001: Artigo XBOX

No interior da revista BGAMER de fevereiro de 2001 podemos obter mais algum conteúdo sobre a revelação da consola (Figura 11, 12 e 13). São destacadas as semelhanças com a Dreamcast (principalmente ao nível do comando) e questionava-se o que a consola da Microsoft iria trazer ao mercado, principalmente no que a distinguiria das suas principais concorrentes: Sega, Nintendo e Sony. Fala-se ainda que a Microsoft “não caiu na armadilha em que a Sony pareceu tropeçar”, nomeadamente no que diz respeito à facilidade de programação da máquina, sendo realçado que a Microsoft tentou agradar às empresas que desenvolvem os jogos de forma garantir o seu apoio. Para além da compra de vários estúdios, relatava-se que a Microsoft tinha conquistado a “teimosa” EA. Relembro que a EA não apoiava a Dreamcast, que na época era a consola com enorme potencial.  

As notícias sobre a Xbox já tinham começado a circular um pouco antes. Na revista Mega Score de Abril de 2000 (Figura 14) é destacada a entrada em cena da Microsoft, mesmo que os detalhes ainda não fossem muitos. No editorial (Figura 15), o autor falava da entrada triunfante da Sony para tentar parar a escalada da Dreamcast e o anúncio repentino da Microsoft que resultaria num “excesso de gente”. Já na época se especulava qual das concorrentes cairia no campo de batalha. Hoje sabemos quem foi. No dia 31 de janeiro de 2001 a Dreamcast recebeu o anúncio da sua morte, passando a existir um lugar livre.
No interior da revista Mega Score encontramos um artigo interessante sobre a Xbox (Figura 16 e 17). Na época ainda se especulava que a Xbox traria um processador de 600 MHz, que mais tarde se veio a confirmar ser mais potente. No referido artigo, o autor fala da ameaça que a Dreamcast e a PS2 trariam para o mercado gamer no PC. Dizia-se que existiam 29 milhões de jogadores de consola e 11 milhões no PC, e que a aposta das novas consolas poderia levar os jogadores de PC a ter uma transferência de interesses para sala de estar, onde poderiam aceder à internet para jogar e navegar nos vários websites. Este possível reposicionamento por parte do consumidor poderia colocar a plataforma PC em causa, dado que qualquer uma das consolas poderia receber periféricos como disco rígido, rato e teclado e afastar o público do PC.
Na referida publicação já se fala de uma versão do Windows 2000 com suporte para DirectX (API para desenvolvimento de jogos da Microsoft) para o sistema operativo da Xbox, o que fazia com que o desenvolvimento para a consola fosse muito similar aos métodos utilizados na plataforma PC. Esta aposta no mercado das consolas terá sido provavelmente potenciada pela experiência que a Microsoft obteve de uma parceria com a Sega no Windows CE para a Dreamcast. No entanto, a parceria não funcionou muito bem essencialmente devido a problemas de desempenho. No artigo é ainda discutido um rumor que indicaria que a Sega faria uma nova parceria com a Microsoft para que a Sega estivesse envolvida na produção da Xbox, potenciando o know how que a Sega possuía. A Microsoft não a teria na época e poderia recorrer a esta parceria para acelerar o processo de entrega da consola.
A nível hardware, a máquina era espantosa. Na realidade o hardware da máquina assemelhava-se muito a um PC da época. A ideia que passava era que a Microsoft vinha para dominar não só com o poder disponibilizado pelo hardware da consola mas também com vários jogos a serem anunciados A máquina era realmente impressionante para a época. Lembro-me de ter ficado pasmado quando vi as especificações pela primeira vez. O Pentium 3 a 600 MHz (que passou a ser de 733 MHz) e o chip gráfico GeForce 3 surpreendeu-me até porque ainda à relativamente pouco tempo tinha recebido como prenda, um computador caríssimo (naquela época eram todos) que tinha um processador a 500 MHz e uma gráfica bem mais fraca (a GeForce 3 era a realidade a gráfica que na época gostaria de ter). E de facto a diferença para a concorrência era abismal. Na teoria a consola era duas a três vezes superior à PS2.
Mega Score Junho 2001 -Opinião
Figura 20 – Mega Score Junho 2001: Artigo de opinião

Em maio de 2001 a consola é finalmente apresentada na E3. A revista Mega Score faz capa do acontecimento (Figura 18). O editorial (Figura 19) é focado no impacto da Xbox na indústria e no interior da revista, um artigo de opinião (Figura 20) relata a forma agressiva da Microsoft e aquilo que parecia um “desvario de Verão”. E de facto parecia. A Microsoft andava a comprar estúdios e exclusividade de conteúdos e investia milhões nesta investida. Será que vinha para ficar ou se corresse mal abandonava o barco? 

Na referida edição da Mega Score de junho de 2001 (Figura 18) é apresentado um artigo (Figura 21 e 22) sobre a apresentação da Xbox na E3 de 2001. Encontramos diversas referências relativamente à potência da consola. O artigo começa por referir que o posicionamento da consola está essencialmente relacionado com seu hardware: “Com a Xbox e pela primeira vez, os jogadores terão aquilo que é, para muitos, o Graal das plataformas de jogos: a potência de um (bom) PC ao preço de uma (boa) consola”. O autor refere que a maioria dos jogos apresentados, mesmo num estado de desenvolvimento, tinham melhor aspeto que os jogos existentes na PS2, mesmo com a Microsoft a entregar tardiamente o dev kit aos estúdios (curioso o dev kit – Figura 21). É ainda referido que vários programadores tinham confirmado que as versões finais de alguns jogos seriam graficamente superiores que existiam para PC.
O Japão é apontado como um local crítico e chave para a Microsoft vingar a nova consola (até hoje a Microsoft não se conseguiu impor em território nipónico). Fala-se ainda do estrondoso orçamento para promoção da consola que em três meses seria superior ao valor gasto num ano com o windows 95. Para se ter uma ideia da dimensão, o autor termina o artigo questionando se este não se tornaria o flop mais dispendioso da história dos videojogos. Nas páginas seguintes (Figura 23 e 24) são apresentados alguns jogos demonstrados na E3, revelando vários detalhes sobre o hardware da máquina, inclusivamente superiorizando-a a um PC de topo da época, mostrando “relatos” de vários programadores que referiam ser impossível replicar as experiências possíveis na Xbox (como Morrowind) em outras consolas, destacando também a facilidade de programação da máquina.
Para terminar, chamou-me a atenção o início do artigo:
“Uma consola só vale pelos jogos que tem. O axioma, válido para todas as guerras entre consolas, aplica-se a fundo na Xbox, mesmo que os detractores do sistema, vá lá saber-se porquê.. – lhe neguem validade. 
É no mínimo, estranho, que se aponte MSR (Metropolis Street Racer) como um dos melhores jogos da carros para a Dreamcast e se olhe para Project Gotham Racing com algum descrédito sobre as capacidades da simulação de condução da Xbox. Pois se os autores são os mesmos, a Bizzarre Creattions, e eles consideram que o potencial da consola abre novos horizontes (…)”
Achei curioso este início porque ainda hoje conseguimos observar situações semelhantes de descrédito em relação a conteúdos da Xbox quando anteriormente (isto é, quando não estavam presentes na consola Xbox)  eram de alguma forma enaltecidos (pelo menos para estes lados).
A aparência da consola era controversa: uma enorme caixa (pesada!) que fazia algum barulho e trazia algumas “inovações” que se viriam a tornar um standard. Ao reler as revistas da época, deparei-me com algumas informações caricatas. Na época, a referida Mega Score de junho de 2001 (Figura 18), no seu editorial (Figura 19), foi referido que a concorrência da Xbox considerava a porta Ethernet irrelevante (!) e que a grande vantagem da Xbox era o seu disco rígido (de 8gb). Na época foi criticada a sua utilização, como sendo uma influência negativa do universo dos PCs mas a verdade é que a Sony rapidamente tratou de disponibilizar uma slot para disco rígido e preparar o lançamento da porta Ethernet (através de um adaptador).  É de facto sinal que os jogos online não eram ainda uma aposta da Sony e Nintendo. Relembro que a Dreamcast não tinha porta Ethernet mas continha um modem (daqueles que se ligavam diretamente ao cabo do telefone fixo) embutido para ligação à internet. 
Além disso, a Microsoft apostou no leitor de DVD (tinha de ser), no entanto para usufruir desta funcionalidade era necessário adquirir um comando à parte, caso contrário não poderiam ver filmes em DVD.
O Xbox Live foi também uma importante contribuição para a indústria. Não lhe chamo inovação, porque o verdadeiro contributo veio da Sega Dreamcast (sim, eu sei que outras plataformas introduziram jogos online anteriormente, mas não com a mesma amplitude). A nível de jogos, a Microsoft apostou em força. O investimento foi “à bruta”, mas gerou grandes jogos que ainda hoje são verdadeiros clássicos que podem ser aproveitados via retrocompatibilidade (e melhorados) na Xbox One X. A própria Sega apoiou bastante a máquina na Microsoft, o que parece ter sido uma continuação da parceria iniciada com a Dreamcast. Vários jogos da Dreamcast foram lançados/adaptados exclusivamente para a Xbox: Jet Set Radio Future, Crazy Taxi, Panzer Dragoon Orta, Shenmue 2, etc. De facto notou-se que não só a Sega mas também vários estúdios fizeram uma aposta de nova geração na Xbox com jogos como: Ninja Gaiden, Halo, Star Wars: Knights of the Old Republic ou The Elder Scrolls III: Morrowind.
E assim começou a aventura da Microsoft no mundo dos videojogos que perdura até aos dias de hoje. De facto, muitas coisas mudaram desde o longínquo ano 2000 (onde comecei a retratar as primeiras notícias da Xbox), não só na divisão Xbox, mas também na indústria dos videojogos. Apesar dessas mudanças, podemos observar que algumas práticas continuam a ser recorrentes e várias das premissas idealizadas inicialmente pela Microsoft continuam a ser uma realidade na atual e próxima geração.
5/5 (2)

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